A compaixão, a confiança e a intimidade nas suas relações

Muitas vezes eu me sinto muito desafiada no meu objetivo de abordar temas tão profundos num simples texto. Eu topo o desafio porque tenho como motivação o meu desejo de contribuir com a saúde emocional das pessoas que dão atenção ao que escrevo. Se isso acontece é porque existe uma conexão entre nós e esse tipo de conexão me interessa.  Uma conexão para além do cognitivo, que nos expõe de certa forma, mas  nos coloca em sintonia de almas. Ainda que eu esteja só quando escrevo, quando você me lê e, principalmente, quando comenta ou curte, se estabelece uma troca.

Eu quero te falar um pouco sobre o espaço psicoterapêutico e do valor desse espaço e aproveitar para ir um pouco além e apresentar uma perspectiva interessante sobre a compaixão, a confiança e a intimidade nas suas relações amorosas, familiares e sociais.

O que um psicanalista faz? Se você não fez nenhum tipo de terapia, pode ter curiosidade de saber o que é que acontece no que chamamos “setting psicanalítico”, um espaço de comunicação e manejo para atender as necessidades individuais nos atendimentos.

Porque este espaço oferece tantos ganhos para as pessoas que o utilizam?

A melhor forma de ajudar alguém é permitir que a pessoa sinta-se à vontade para ser quem é, para expressar-se sem se sentir julgada, que ela possa viver o drama que a atormenta sem ficar preocupada com os limites de conveniência. Sem se preocupar em fazer sentido, em racionalizar. A pessoa quer uma escuta, quer ser ouvida. O analista é alguém que ouve dessa forma, sem julgamento e sem entrar no drama, é alguém que respeita a individualidade daquela alma e oferece um espaço para a pessoa, que é um ESPAÇO DE EXISTÊNCIA. Veja quão importante é o espaço, nele a pessoa se sentirá sendo ELA. Para muitas pessoas ser quem ela é, relaciona-se com a percepção de não ser valorizada, então, ela se adapta e procura atender expectativas dos outros ou dela mesma baseada na sua imagem idealizada. Isso gera uma exaustão e um acúmulo que em algum momento vai transbordar.

A escuta neutra, porém, atenta e fraterna, oferece o espaço para autenticidade. Nesse espaço a pessoa entra em contato com sua criança e também com seu Eu Superior, aquele que tem as respostas, e encontra o que precisa para resolver seus dilemas, curar suas feridas, abrir possibilidades e seguir em frente. Isso acontece dentro de um processo sistemático que passa por fases até chegar naquele resultado, cuja duração é variável. O analista tem a sensibilidade de não expor seu cliente a uma mudança de fase sem o devido cuidado.

Os conselheiros vocacionados em toda tradição da história humana, em todas as culturas, são pessoas que tem uma COMPAIXÃO e sabedoria que lhes permite oferecer essa escuta aos que lhe procuram. Eles também oferecem um espaço para a existência.

Um amigo ou familiar pode oferecer isso, se conseguir dominar o desejo de se envolver, dizer ao outro o que deve ser feito, fazer críticas e tentar motivar o outro a mudanças. Em geral, os amigos tem mais dificuldade porque se envolvem emocionalmente, e oferecem conselhos baseados no seu sistema de crenças e valores, nas suas distinções em relação a vida. Estão bem intencionados em sua disponibilidade de oferecer ajuda que sempre será valiosa pelo afeto que se oferece. O que ocorre é que eles tentam que o outro se comporte de uma determinada forma sem levar em conta a história daquela alma, que nenhum outro consegue conhecer plenamente. Ás vezes, o amigo ou familiar se irrita porque o outro não aprende, não muda, continua sofrendo por aquele motivo. Em geral, temos dificuldade de nos esvaziar das nossas certezas, das nossas opiniões.

E, por fim, falemos das relações amorosas. Existem casais que mesmo com uma convivência longa tem um grau de confiança limitada no outro, se é que se pode dizer assim. As pessoas pensam até que confiam porque tem uma estrutura de casal ou familiar em comum, criada com o investimento de ambos. Mas isso não indica necessariamente a intimidade gerada pela confiança plena.

Existem namorados ou ficantes que se consideram íntimos por causa da relação sexual, do encontro dos corpos, e de atividades comuns,  quando intimidade é algo bem mais denso e tem a ver com a confiança gerada em um nível mais profundo.

Há uma carência generalizada de se estabelecer relacionamentos de confiança. Nossa humanidade se expressa quando a gente se esvazia de opiniões e deliberadamente se coloca numa posição de compaixão, de amorosidade onde está oferecendo a sua presença para que o outro se expresse, se mostre. Para que o outro SEJA.

Está havendo em nosso momento histórico uma dificuldade de oferecer a nossa presença, que é diferente de oferecer pena, de querer que o outro saia logo da aflição porque a aflição dela nos aflige. Ainda que se queira, de verdade, ajudar a pessoa ela se mistura emocionalmente, sente o peso e se desestabiliza. Há uma tendência de querer resolver pelo outro, para o outro, para sentir-se de volta a sua zona de conforto emocional.

O melhor é ver a pessoa em problemas com o olhar divino. Ser uma presença que respeita a dignidade do outro. Quem se coloca assim, atua como instrumento dessa divindade. Cessa a necessidade de tentar resolver e deixa o divino atuar através de você, oferecendo um espaço para que o outro exista, um espaço onde a Sabedoria divina vai atuar. Você se torna um abençoador.

Seu companheiro(a) e você mesmo, quando se colocam na relação dessa forma, geram um ambiente de confiança e de uma intimidade profunda. A relação se consolida sobre bases muito firmes e sólidas (não entenda isso como segurança, não é disso que estamos falando, tudo a nossa volta muda e nós também). A solidez está no espaço de liberdade para ser. E quando eu sou e facilito para que o outro seja, estamos sempre nos atualizando.

Quando nós sentimos confiança e intimidade com alguém, aquela companhia se torna uma presença desejada, valorizada e querida. A relação é de troca e sem julgamentos, é um espaço de aceitação. Tem amizades que se constroem assim e as relações amorosas saudáveis oferecem muito plenamente a oportunidade de vivenciar isso porque, para além da amizade há um espaço sensorial envolvido. Onde há confiança há generosidade e respeito. A intimidade é uma conquista gerada na relação de confiança. É um privilégio para alguém viver ou ter vivido essa experiência. Ela tem um expressivo valor e, depois de conhecida, pode ser a abertura para que novas oportunidades desse espaço de existência surjam.

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